sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Identificando o problema

Era domingo à noite. Estava entrando na “hora da depressão”. Aquela musica do Fantástico não me faz bem. Futuramente, se eu vier a trabalhar na Rede Globo, posso dar um jeito de mudar, alterar ou deformar. Mas atualmente só posso apertar Mute.
O que me deixa agitado é que quando a música começa, eu lembro que é domingo. Domingo à noite. Isso parece bem óbvio e bem simples. Mas não é. Eu tenho aula no outro dia. Tenho que acordar às 5h da manhã pra fazer o culto, tomar banho, tomar café, tomar o ônibus (e tomar outras coisas ao longo do dia).
Pois bem, estava assistindo. Queria vê a rodada do Brasileirão. Queria vê como ia das pernas o meu querido São Paulo. Mudei pra Record. Lá estava passando os gols, os melhores momentos, os outros jogos. Tudo o que eu queria estava lá.
Continue assistindo o Domingo Espetacular. A reportagem seguinte falou sobre a África. Meu ponto fraco. Não gosto que falem sobre a África, não gosto de vê reportagens sobre a África, não gosto de lê sobre a África... Tudo isso por um simples motivo: eu amo a África. Tenho pena do povo Africano. Minha igreja faz um fantástico trabalho social na África. Quando vejo os relatórios, as cartas missionárias e os sites, meu coração parte. E dói. E dá vontade de chorar...
Á África é disparado o continente mais injustiçado do mundo. É incrível como somos injustos com os Africanos: nós os escravizamos, os exploramos, os matamos... E hoje em dia praticamente cruzamos os braços para o desastre que é aquele continente.
No Domingo Espetacular, tava passando uma reportagem sobre o Congo. Lá, morreram 2,5. 000.000.000, vítimas de guerra civil (olha o tanto de zeros. Não esta digitado errado. São 2,5 MILHÕES DE PESSOAS). De cada 10 tribos, 11 brigam. Todas contra todas. O exército, em vez de proteger, é o principal acusado de violentar praticamente todas as mulheres. Os homens, humilhados, se mudam para os países vizinhos (que não são lá nenhuma maravilha). Assim, a população fica indefesa.
Eu chorei ao final da reportagem. Não que eu seja um chorão. Quer dizer, ás vezes eu sou. Já chorei com Everwood (ta bom, ta bom... eu admito que foi criancice minha!). Já chorei com A Cabana, por causa da menina das 21 vezes. Enfim, chorar faz bem. Eu não sou lá exemplo de saúde, mas nesse quesito eu me trato. E nesse dia eu chorei.
A primeira coisa que eu fiz, depois dos prantos, foi me filiar a uma ONG. Eu olhava para o Congo, olhava para Uganda, olhava para Senegal, Costa do Marfim, etc, e me perguntava por que eu estava parado! 13.700 crianças morrem diariamente e eu não podia simplesmente ficar de braços cruzado.
Revoltei-me muito com o governo. Com a política contra a pobreza dos Republicanos. Bush que o diga. Virei um militante em prol da África. Eu era daqueles chatos do Greenpeace: nada de carro, nada de made in China (porque a China ultimamente é bem responsável pela tragédia do Sudão), nada de energia exarcebada... Tudo na linha, tudo na reta. Eu tava um moralista de dar gosto a qualquer mãe.
Comecei a falar pra pessoas do problema da África. Estava chocado. Queria que mais e mais pessoas se filiassem a ONG. Mas ficava de boca aberta com o “não to nem aí” das do povo. Então sai do âmbito da “irmandade” e fui pra o âmbito “pastoral”. Talvez de alguma forma os pastores me ajudariam. O que acabou acontecendo, mas muito pouco (bem muito pouco mesmo) para o que eu pretendia.
Então, toda vez que era convidado pra alguma denominação, falava da África. Nos debates na minha igreja, falava da África. Quando ia a Batista, falava da África. Foi aí que depois de falar para os Metodistas, fiquei pensando se tinha conseguido algo. Comecei a pensar se realmente eu poderia mudar o mundo. Quer dizer, claro que podemos (elegendo melhores representantes, mudando hábitos, etc.), mas eu não acredito que com nossos esforços estaremos resolvendo o grande conflito humano. Isso porque o problema do mundo não é uma legislação ou um determinado político; o problema é o que sempre foi.
EU SOU O PROBLEMA!
Acho que toda pessoa realmente consciente, chega a um determinado ponto em que para de atribuir os problemas do mundo à humanidade e começa a encarar a si mesmo. Essa é uma das coisas que eu tenho certa dificuldade em encarar na vida cristã. Meu orgulho judaico fica ferido. O problema não está lá fora; o problema é o meu coração.
Percebi no dia em que falava para uns Metodistas. Percebi que não me fez bem atribuir aos EUA no geral e as religiões em particular a responsabilidade pela pobreza mundial quando eu não estava sequer dando dinheiro para minha igreja, que tem um trabalho MARAVILHOSO na África.
Quando peguei o ônibus, estava me sentindo um hipócrita. Um falso-moralista. Eu queria realmente justiça social ou ser conhecido como uma pessoa socialmente atuante? Passo 95% do meu tempo pensando em mim mesmo. Não preciso vê o Jornal Nacional para constatar que o mundo vai mal. Basta olhar para o meu interior.
O que eu comecei a perceber é que a verdadeira mudança, a verdadeira mudança honrada e revigorante aos olhos de Deus tem de começar com o indivíduo. No interior. O brilhante teólogo Morri Vende acerta em cheio quando diz:

“Quando Deus atua no problema do pecado, Ele vai ao cerne da questão – o coração da pessoa! Esta é uma das principais premissas da justificação pela fé. Deus não é dos que põem bandagem sobre o câncer. Ele sabe que quando o coração está certo, tudo o mais se ajustará no lugar. Nós, seres humanos, impressionamo-nos com a obediência exterior, porque o exterior é tudo quanto podemos ver. Mas Deus olha para o coração, e nenhuma quantidade de polimento externo pode ocultar o pecado que jaz no coração. Portanto, somente a limpeza do coração tem qualquer valor em sua perspectiva.”

Naquele dia, resolvi não ir pra casa diretamente, mas ir á praia. O sol estava quase se pondo. Eu sentei na areia da praia e comecei a pensar em mim mesmo como problema. Aquela parecia uma idéia absurda, mas progressista. Fiquei ali olhando pra ondas, pras pessoas, pra areia do mar. Aquilo era algo novo, repugnante, mas que me deixou pensativo. Muito pensativo.
Sai dali e comecei a lidar com isso. Hoje sei que o caminho para uma espiritualidade sadia atravessa esse vale sombrio. Acho que todo ser humano bem ajustado já lidou com isso. Jesus leva muito a sério o “monstro interior” e acho importante refletir sobre isso.
Como diz o Donald Miller: “Nada irá mudar no Congo, antes que você e eu descubramos o que há de errado com a pessoa do espelho.

Nenhum comentário: